28 de dezembro de 2016

DN - Reportagem Especial Dedicada à Casaca dos Toureiros

Seda de Itália e algodão de Espanha.
Os trunfos das casacas de toureiros
Rui Fernandes é um dos cavaleiros nacionais que usa casacas trabalhadas pelo alfaiate Tomé Augusto
Nas praças nacionais não há novidades neste traje. Reina o tradicional numa veste que custa no mínimo 1500 euros

Azuis, iguais há décadas, pesadas, graciosas e brilhantes. Quem vê um cavaleiro a fazer a sua lide numa praça de touros e é mesmo aficionado pode não dar muita importância a um dos adereços que mais chama a atenção a um outsider: a casaca que veste e que o pode distinguir dos outros cavaleiros.

Aquela parte do traje é o resultado de um trabalho minucioso, longo e complexo e que uma escolha errada de tecido ou entretela pode deitar por terra. O trabalho e uma reputação. Basta uma opção menos atenta por um tecido para que este não aguente a lide e rasgue.

Aí o cavaleiro fica sem casaca - cujo valor mínimo ronda os 1500 euros e pode chegar aos três mil - e o alfaiate com o nome, pelo menos, assinalado num meio onde todos se conhecem e encontram.

Fazer uma casaca de cavaleiro é, também por isso, um desafio. Que é recompensado quando as mais bonitas e trabalhadas acabam por ser expostas, por exemplo no Museu da Tauromaquia, no Campo Pequeno.

Mas, a verdade é que ser alfaiate com esta especialização é uma profissão em vias de extinção. Neste momento há apenas dois em Portugal: um em Coruche (Manuel Marques) e outro na Amadora (Tomé Augusto).
A primeira casaca que Tomé Augusto fez foi para
 o cavaleiro João Moura. Uma oferta de uma
senhora que não se deixa identificar

GUSTAVO BOM / GLOBAL IMAGENS
É num atelier pequeno nesta cidade que este alfaiate há 50 anos tem feito casacas para inúmeros cavaleiros. "Esta não é uma confeção barata. Eu, no mínimo, levo 1500 euros", explica ao DN, justificando o preço com os cuidados. "Procuro boas entretelas, bons forros. É uma obra cara, mas procuro tudo para servir bem o cliente."


Na seu pequeno espaço, Tomé Augusto não tem casacas para mostrar - "assim que estão feitas levam-nas logo" -, mas aguça a curiosidade de quem sobe os degraus para a loja com fotos recentes e antigas de cavaleiros envergando casacas por si feitas. "Trabalho nisto [alfaiate] desde os 17 anos, tenho 76. A primeira casaca que fiz foi para o João Moura. Uma senhora ligou-me, aliás o chofer, e encomendou-a. Até hoje, a senhora nunca me deu autorização para dizer o nome dela", recorda sentado junto ao balcão da loja onde reinam os fatos aprumados e de corte rigoroso.

Sobre não ter uma casaca para exibir, em confeção, tem uma explicação simples: "Eles [os cavaleiros] não têm muitas, só uma ou duas. Enfim, depende do poder económico. E, às vezes quando estão enrascados pedem emprestadas uns aos outros", acrescenta este natural de Abrantes, que vive na Amadora há 50 anos. "Trabalhei em Torres Vedras e depois de me casar por lá vim viver para aqui [Amadora], onde estou há 50 anos".

Fazer uma casaca é um trabalho minucioso, pode levar dois meses, e tem na escolha dos tecidos um dos segredos. "Compro tudo no estrangeiro", afiança. E onde? "Em Itália e Espanha, são os melhores tecidos". E na comparação entre estes dois fornecedores também há um pormenor importante: "O tecido espanhol é mais pesado, tem mais algodão. Já o italiano tem mais seda".

Tradicionais e com gosto pelo azul

Os cavaleiros portugueses têm, pelo menos, um ponto em comum: são tradicionais na escolha da casaca. Não mudam o feitio - "às vezes pedem um arredondamento pequeno" - que se mantêm desde há 40/ 50 anos. Mesmo nas cores a variedade não é muita: "Gostam do azul, também se fazem muitas com o vermelho e às vezes o bege. O Bastinhas, por exemplo, usa o vermelho e o azul. E para a noite usam muito o azul escuro. Há também quem procure o veludo - garrafa ou preto."

Mesmo os cavaleiros mais novos que vão surgindo nas praças não trazem para esta arte - para uns, muito contestada por outros - ideias diferentes para os trajes. "Não mudam. É tudo o mesmo tipo, vão sempre pelo tradicional, como era há 30 ou 40 anos". E o que é o tradicional: chapéu bicórneo com penachos, bota de cano alto até ao joelho, calção justo, de malha e colete branco. E, claro, as casacas de seda ou de veludo bordadas. As casacas acabam por não ser o principal objeto do seu trabalho, mas é uma paixão. "Gosto muito de fazer estas obras", diz com um brilho nos olhos.

Tomé Augusto não vai muito a touradas, uma das suas particularidades - a outra é não gostar de ser fotografado. Mas quando decide assistir o que acha que mais aprecia ver na praça? As vestes dos toureiros e forcados? Desengane-se. O que gosta mesmo de ver é "o trabalho dos cavalos".

Texto: DN (Diário de Noticias) Por: Carlos Ferro
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