22 de fevereiro de 2015

DN - (1de3 Dias) - "Não Considero que Represente Uma Escola, Tenho Uma Maneira de Ser"

Sábado, 21 de Fevereiro de 2015
As suíças são a imagem de marca que copiou de um maioral de éguas do pai
As suíças são a imagem de marca que copiou de um maioral de éguas do pai
Fotografia © Jorge Amaral/Globalimagens
Entrevista a David Ribeiro Telles. Chamam-lhe o "mestre", distinção pelo que trouxe à tauromaquia - foi forcado e cavaleiro -, e pelo carácter. E em casa é tratado como tal.

O que é a "escola David Ribeiro Telles"?

Não considero que represente uma escola. Tenho é uma maneira de ser e os que me procuram gostam. Toureei durante muitos anos e isso faz que seja conhecido, mas não é escola nenhuma. Podem dizer isso porque a maior parte dos toureiros a quem dei alternativa, 22 no total, passaram por aqui.

Que maneira é essa de tourear?
Respeitar o público e dar tudo o que se é capaz, ter uma entrega total à lide, respeitar o toiro e o cavalo. De resto, não há escola nenhuma.

Quem a refere caracteriza-a por uma forma clássica de tourear, pura, o que é que isso significa?
Diziam que os cavaleiros antigos tinham de tourear ao estribo. Cravar o ferro de alto abaixo na linha do estribo [meio do cavalo]. O toiro não está nem muito à frente nem muito atrás, há um maior risco de o cavalo ser colhido. E há que ser franco com o toiro, tem de se ter o toiro de frente [de caras]. Se possível, sempre a encarar o toiro de frente.


Profissionalizou-se tarde, aos 30 anos e também se retirou tarde. Durante quantos anos foi profissional?
Não toureio, mas continuo a ser profissional. Não passamos a amadores depois de nos retirarmos.

Não gostava de fazer uma festa de despedida?

Não. O público é que nos despede, não somos nós a decidir isso.

Há diferenças na tauromaquia de agora e de quando começou?
Há sempre diferenças. O tempo passa e as coisas são diferentes. A principal é a nível da convivência, dantes os toureiros conviviam mais uns com os outros. Hoje praticamente não se veem, só na praça.

Talvez porque sejam mais.
Não são mais, pode haver mais pessoas com alternativa, mas o grupo especial são uns 18. É muito difícil ser toureiro. Não é só gostar de ser toureiro, é preciso muito trabalho para se ser toureiro, tem de haver uma entrega total.

Agrada-lhe que os netos continuem a geração de cavaleiros?
Gosto que a arte tenha continuidade. Seguem a profissão a que me dediquei. É muito trabalhosa e depende do êxito que se tenha junto do público. E o êxito não depende só da pessoa, depende do cavalo e do toiro. Depois, da afición que se tenha para treinar e nunca desistir.

Qual a sua praça preferida?
O Campo Pequeno. Tem um público que exige responsabilidade e a praça também provoca respeito. O público, estar na capital, tudo tem um simbolismo. O público foi sempre exigente, mas agradável, não regateia bater palmas a um toureiro.

E há ganadarias eleitas?
Há ganadarias cujos toiros são mais fáceis de tourear do que de outras, agora de uma ganadaria fácil pode sair um toiro difícil e o contrário também pode acontecer.

O que é um toiro fácil? Ou difícil?
Um toiro fácil é aquele que investe e permite ao toureiro fazer o toureio que idealiza. Um toiro difícil em vez de investir põe a cabeça no chão e raspa o chão, é manso.

Recorda os seus cavalos?
Na minha carreira tive três ou quatro cavalos que deixaram saudades e com os quais consegui fazer o toureiro que ambicionava. Recordo o Esparteiro [como qual recebeu alternativa], o Minuto, o Armillita. Toureei com o Armillita durante muitos anos e, quando ele estava incapaz de tourear, vendi-o para França, para se reproduzir, a uma pessoa que sabia que o tratava bem e onde poderia ter uma boa velhice. Fui tourear em Dax [Sudoeste de França] e o dono do cavalo pediu para tourear com ele, disse que sim para fazer o jeito. Quando cheguei ao pé do cavalo, começou a lamber-me mas ao mesmo tempo estava muito nervoso, com o coração aos saltos. Disse ao cocheiro para tirar o arreio de tourear que só o montava para as cortesias [saudação de todos os intervenientes] e o cavalo sossegou. Apercebeu-se.

Continua a ir aos toiros?
Não vou desde que tenho dificuldades em andar, embora continue a procurar estar informado das coisas e do desenrolar da época.


Texto: DN - Diário de Noticias Por: Céu Neves
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1 comentário:

  1. Grande senhor! Grande mestres! Vi-o tourear Muita vez. E assisti Talvez a última vez que montou no Campo Pequeno, na alternativa do neto, confesso que senti arrepios e saudade. Bem haja!

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